sexta-feira, 23 de agosto de 2013

‘Sinfonia’ Paulistana – Retrato de Uma Cidade (1974)


Desde pelo menos o IV Centenário, os compositores que se dedicam a homenagear São Paulo se valem do mais desbragado ufanismo e das imagens do "progresso", do "trabalho", do "acordar cedo" ou "não dorme"... Só que, enquanto quase ninguém mais lembra dos "hinos" de 1954, dificilmente haverá um paulistano que não reconheça o "vambora, vambora, olha a hora, vambora vambora"... Claro, parte disso se deve ao fato de que a música é tema e vinheta de um  programa de rádio matinal tradicionalíssimo na cidade. Quem madruga pra trabalhar ou estudar em algum momento foi confortado, acordado, consolado ou irritado com a emblemática canção-convocação de Billy Blanco.
Mas, é claro, há outra razão para a permanência da música na memória coletiva: a música é muito boa! Podemos discordar completamente de, ou problematizar infinitamente, palavras como:
São Paulo, que não sabe adormecer
Porque durante a noite, paulista vai pensando
Nas coisas que de dia vai fazer
São Paulo, todo frio quando amanhece
Correndo no seu tanto o que fazer
Na reza do paulista, trabalho é Padre-Nosso
É a prece de quem luta e quer vencer

Mas ninguém fica indiferente ao ritmo acelerado e à cadência impressa pela melodia a essas palavras. Poucas articulações foram tão bem sucedidas. A eterna pressa do paulistano-tipo está perfeitamente ilustrada na melodia que acompanha os famosos versos (claro que o leitor conhece a melodia):
A cidade não desperta, apenas acerta a sua posição
Porque tudo se repete, são sete
E às sete explode em multidão

Pois é. Você conhece, você viveu (ou vive) tudo isto. Então aproveite: o sensacional blog "Um que tenha" disponibilizou este disco para download. Se você quer entender um pouco melhor o que São Paulo disse de si mesma no século XX quase todo, tem que ouvir. E se quer fazer uma cidade diferente, tem que ouvir também, porque é com essa imagem que você vai se defrontar em algum momento.

‘Sinfonia’ Paulistana – Retrato de Uma Cidade (1974)
http://www.youtube.com/watch?v=-sJ4O1DbpEc&hd=1

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Camelódromo, manifestódromo e a redução da urbanidade

Ideias caras ao planejamento e desenho urbano mais ortodoxo preconizam a separação de usos e a definição clara de atividades específicas a serem desenvolvidas em determinados espaços das cidades. A concepção implícita a esta forma de organizar o espaço urbano é centrada na ideia de "eficiência": as atividades devem ser realizadas com o máximo de desempenho e o mínimo custo. Uma lógica, como se pode ver, muito coerente com o nosso capitalismo.
Assim, a parcela dominante da população procura, em nome dessa eficiência capitalista, reduzir os "improvisos" e os "distúrbios" que pudessem inibir ou entravar a livre circulação de pessoas, veículos, mercadorias. Em uma palavra: de riquezas. Daí uma definição estrita e intransigente da rua como "sistema viário": um espaço de circulação, não de permanência; de passagem, não de parada... e de carros, não de pessoas (estas se limitem ao espaço das calçadas. Segurança? Não: desimpedimento ao carro). As calçadas e praças, por sua vez, são igualmente restritas à passagem (mesmo que de pedestres), e outras atividades são consideradas inapropriadas, porque "interferem" no uso principal do espaço, novamente fundado em circulação/passagem. Daí se entende porque as gestões passadas da prefeitura de São Paulo (observemos quanto deste comentário poderá se aplicar à gestão atual...) travaram verdadeira batalha para "livrar" os espaços públicos dos usos "incômodos", como os artistas de rua e o comércio ambulante.
Mas as práticas cotidianas de apropriação e uso do espaço urbano parecem se fundamentar em costumes muito mais antigos do que este requisito de eficiência do urbanismo moderno/contemporâneo. Segundo esses costumes, os espaços urbanos são fundamentalmente "multifuncionais" e seus usos intercambiáveis ou mesmo coexistentes (simultâneos). Não é, provavelmente, uma solução de alta "eficiência", pelo menos não sob o ponto de vista da circulação desimpedida. Mas é uma prática do espaço que propicia uma série de outros ganhos não contabilizados: espaços de interação, intercâmbio, informação. E, como Jane Jacobs já observara há mais de 50 anos: espaços frequentados são geralmente espaços mais seguros...


A desordem insuportável da cidade pré-moderna...

Mas o ideal funcionalista e redutor permanece incólume como parte da ideologia de muitos gestores públicos, autoridades políticas, membros da elite econômica, etc. Para estes, a diversidade e multiplicidade das atividades em espaço urbano se confundem com "desordem", devendo ser disciplinadas e domesticadas. Um primeiro caso deste tipo de intervenção ordenadora contemporânea está nos famigerados "camelódromos", denominação jocosa aos espaços destinados a agrupar comerciantes ambulantes (camelôs), retirados de ruas e praças onde - diz-se - sua presença atrapalhava a livre circulação de transeuntes. Desconsideram-se as condições fundamentais para a sobrevivência do comércio ambulante: a proximidade dos fluxos de pessoas e a possibilidade das compras de oportunidade, não planejadas e realizadas apenas porque o passante vê a mercadoria e resolve adquiri-la. O "camelódromo" pressupõe que todos os compradores dos camelôs dirigem-se a eles previamente motivados a comprar algo, sabendo o que é e dirigindo-se decididamente a eles para a aquisição. Margem nenhuma ao improviso e adaptação. (Lamentavelmente, projetos dessa infame categoria de edifícios têm contado com a colaboração de muitos arquitetos e urbanistas, como mostra o projeto abaixo para um "camelódromo em Porto Alegre):

Todo comércio deve se parecer com um "shopping center"?

A situação se complica ainda mais quando, ao ideal "estético" e "moralizante" de uma rua ou praça livre de camelôs, soma-se também a ideia de que outros usos imprevistos e "desconformes" da cidade representam uma ameaça à ordem vigente ou a um "direito" (mesquinhamente definido) de "ir e vir". De carro, é claro.
Estamos nos referindo, claro, aos protestos de rua, frequentes no Brasil nos últimos dois meses, e sua ocupação dos espaços viários para passeatas, com o óbvio impacto sobre o trânsito local. Pouco importa que os protestos sejam por melhores condições de transporte coletivo e por um padrão renovado de mobilidade e acessibilidade nas cidades.
Pois a "solução" que os governantes do Rio de Janeiro trazem como resposta ao suposto conflito entre manifestantes e os motoristas é fazer exatamente o que se pensou a respeito dos camelôs. Retirá-los do espaço dinâmico, fluido e multifuncional da rua para outro - estático, monótono, isolado. Um espaço que, claro, já ganhou o apelido de "manifestódromo"...
Está claro que o objetivo não declarado é silenciar e isolar os protestos, extrair-lhes a capacidade de dialogar com o restante da população e, eventualmente, angariar seu apoio. Mas, para além do objetivo imediato, há que se notar o paradigma persistente, segundo o qual a cidade não deveria servir para mais nada além de ser o espaço de produção e circulação do capital. O que virá depois?
Devemos nos opor a este tipo de solução. Pela possibilidade de inventar o uso do espaço a cada momento, de que ele acomode a criatividade, o improviso, e não apenas a eficiência. E, acima de tudo, que se mantenha aberta a possibilidade de questionar a "ordem" vigente, quando for necessário.
Encerramos com uma imagem satírica: o que teria sido da Revolução Francesa se os manifestantes aceitassem se restringir a um espaço previamente limitado por aqueles contra os quais protestavam?


A distopia da "baderna ordenada"...

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Palestra: "Debaixo do Progréssio: música e urbanização em São Paulo"

Divulgo aqui um evento que será realizado hoje (14 de agosto de 2013) na Unifesp, Campus de Guarulhos.
Vou falar sobre a pesquisa de meu doutorado, envolvendo música e urbanização em São Paulo nos anos 1950 e 1960. As fontes, os métodos, os nomes e... as músicas, claro.
Quem quiser participar da "roda de samba" está convidado!


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Para que serve um abrigo de ônibus mesmo?

Há alguns meses os abrigos em pontos de ônibus de São Paulo têm sido substituídos por um novo modelo.
Neste post muito rápido, quero compartilhar brevemente alguns registros do uso desse novo elemento de mobiliário urbano, e comprovar sua completa inadequação.
A cena: um dia de sol, de começo do ano (verão), numa avenida no distrito da Vila Mariana. Na primeira imagem, as duas usuárias se espremem no canto do abrigo que - vejam que incrível - abriga.


A segunda imagem mostra que a cobertura, cuja função normalmente é definida como a de proteger de intempéries, não protege do sol...

A terceira ironia: enquanto as senhoras ficam em pé junto à única parte sombreada do ponto, a parte que permitiria a espera confortável (sentado) fica exposta ao calor e sol. Um desenho demasiado rígido não possibilita a adequação às condições locais de insolação. E assim fica o ponto meio "abandonado" e meio "abarrotado".

Viu, como se faz: um abrigo inútil, caro e frágil pra (não) usar?