sábado, 21 de junho de 2014

O medo do outro: proposta para dessensibilização


Um vídeo que tem circulado pelas redes sociais mostra supostos "VIPs" - ou como a matéria os chama, "yellow blocks" - que assistem a jogos da Copa do Mundo em espaços exclusivos e seletivos. A própria representação desse público pela matéria, e principalmente a repercussão que teve o vídeo, com acalorados defensores e detratores, mostra uma parcela da população brasileira em situação de completo isolamento em relação ao restante da sociedade brasileira. Isolamento autoimposto, voluntário, fundamentado na presunção de que, ao pagar mais por acesso a um espaço exclusivo, teria-se com isso acesso a um mundo de privilégios, conforto e segurança.
Seria fácil aproveitar este espaço aqui para, mais uma vez, repisar os argumentos e as críticas aos personagens da matéria: a visão social que demonstram em seus depoimentos, a desconexão com a realidade da maioria da população. Muitos já trataram de ridicularizar a postura dos "VIPs", outros tratam de defender a legitimidade de "ter mais quem paga mais". A mim interessa discutir uma questão anterior: o porquê do isolamento. E para isso quero evitar os argumentos naturalizantes - seja o de que a desigualdade é "da natureza humana" (e, portanto, cada um que procure a melhor colocação na parte desigualmente superior) ou que a "luta de classes" é perpétua. Para o bem da vida em coletividade e, mais ainda, para o bem das cidades brasileiras, há que se tentar entender as razões dessa tão forte tendência ao isolamento. A seguir, deve-se tentar propor uma possibilidade de sua superação, ou ao menos minimização. Em linhas gerais, para os mais impacientes: o isolamento vem do medo. A superação do medo poderia ser conseguida por uma técnica que, descobri há pouco tempo, é chamada de dessensibilização sistemática. Essa é usada para indivíduos: o que quero propor é um experimento coletivo de dessensibilização.

A cultura do medo

A declaração é explícita no vídeo em questão: a procura por um espaço de privilégio se deve, entre outras coisas (mas eu diria que principalmente), à percepção de que os eventos populares, coletivos, realizados em espaço público, são essencialmente perigosos: o risco de roubos e assaltos (crimes contra o patrimônio), ou de agressões físicas (crimes contra a vida).
É difícil mapear de onde vem essa ideia generalizada de que o espaço público é o lugar do crime e da violência. Mas diversos estudos têm mostrado que a percepção de violência é muito mais intensa do que a violência real. Ou seja: uma "faca no baço" (ou qualquer equivalente) é um evento bastante raro em aglomerações de população. Mas basta que uma agressão ocorra, a notícia corre rapidamente e passa a justificar o medo. Este se alimenta não da certeza, e sim da probabilidade - por menor que seja. Centenas de eventos pacíficos não são suficientes para dissipar o estigma do espaço público como essencialmente violento. Em contrapartida, um único evento negativo o confirma de forma duradoura.
É difícil argumentar contra motivações emocionais, e mais ainda com base em "dados" ou quaisquer elementos "objetivos" - rapidamente rechaçados com um "queria ver se fosse com você". Mas é mais fácil identificar quem se beneficia desta "cultura": certamente, quem lucra com a exploração dos espaços segregados (onde se pode cobrar muito mais por qualquer mercadoria), a indústria da "segurança" privada (individual, com carros, blindagem, câmeras de vigilância, armas, portões elétricos, etc.; ou coletiva: empresas de segurança, milícias, etc.). Não quero dizer com isso que esses beneficiados promovam a violência, mas é fácil admitir que, sendo beneficiários da cultura do medo, não tenham interesse em atenuá-la.
Vou admitir aqui, ainda que pense de forma diversa, que quem tem medo tenha razão para tê-lo. E vou admitir também que os que encontram na segregação a resposta para o medo não sejam pessoas essencialmente más ou estúpidas. Sem questionar frontalmente suas crenças, quero perguntar apenas o seguinte: o que se ganha com o medo? Muitas dessas pessoas já enfrentaram esta questão no âmbito individual: o que se ganha com a timidez? O que se ganha com o medo de pedir aumento, ou de empreender um negócio próprio, ou de planejar uma viagem, ou de pedir alguém em casamento? No curto prazo, talvez ofereça algum conforto e estabilidade. No longo prazo, porém, o medo é essencialmente limitador. Essa ideia, transposta para a vida urbana, mantém sua validade: o medo do espaço público (e do convívio com o público) é também, essencialmente, limitador. De quê? De experiência, de intercâmbio, até mesmo da possibilidade de festa... e de proteção. Muitos já disseram, junto com Jane Jacobs, que os espaços mais seguros da cidade são os que têm gente - múltiplos olhos que inibem a ação violenta ou criminosa, mesmo que de forma não deliberada.

Dessensibilização sistemática

O caminho para superação do medo passa, e não vejo outra maneira, por enfrentá-lo. Sim, enfrentar o medo, não o que o justifica. As razões para a violência real são múltiplas, complexas, e temos pouco o que fazer individualmente contra elas. Alguma precaução é necessária e inevitável. Para além disso, o que resta é dar a essa cautela salutar a dimensão real que ela requer.
Isto significa que é fundamental rever o preconceito segundo o qual toda experiência de espaço público e de convívio entre classes necessariamente resultará em choque, conflito e agressão (em "facada no baço"). Porém, a quebra deste preconceito não é e não deve ser um processo meramente racional. Por isso, não vou me estender aqui tentando "provar" que se trata realmente de um preconceito. Em lugar disso, proponho que se experimente a cidade. Encontre-a e absorva-a em seu repertório de experiência pessoal.
O processo de "dessensibilização" consiste em diminuir o medo progressivamente. E isso se dá passo a passo, com desafios mínimos sucessivos, a serem vencidos um por vez. Cada etapa deve ser profundamente assimilada, registrada (por escrito, se for preciso) antes de se seguir à próxima. E para isso, deve ser praticada repetidamente, até que o medo de realizá-la tenha diminuído sensivelmente ou desaparecido.
  1. O estágio inicial já está cumprido: é buscar espaços de convívio entre iguais, nos espaços devidamente protegidos e segregados (seja uma balada, um shopping center, ou outro qualquer).
  2. Buscar um evento coletivo em lugar não tão ostensivamente isolado, mas com alto grau de segregação contextual. Por exemplo, um pôr do sol nas praças do Alto de Pinheiros.
  3. Participar de um evento coletivo ao qual se pode chegar e sair de transporte individual.
  4. Participar de um evento coletivo em recinto fechado (portanto, com vigilância), ao qual seja necessário ou facilitado chegar por transporte coletivo. Pode ser na companhia de um subalterno (funcionário, empregado, prestador de serviços), se isso trouxer mais confiança.
  5. Participar de um evento coletivo com ampla divulgação, o que garantiria a presença de policiamento reforçado: por exemplo, a Virada Cultural.
  6. Comparecer a um pequeno evento público em local distante de sua residência: por exemplo, um sarau na periferia.
  7. Caminhar sozinho pelo Centro da cidade, durante o dia. Progressivamente, avançar para o final da tarde, até ser capaz de andar pelo Centro à noite. Sim, neste processo, você ganhará confiança, experiência, e saberá reconhecer os lugares mais e menos seguros, e verá que essa diferença existe: alguns riscos são desnecessários, outros são amplamente toleráveis e até compartilhados por outras tantas pessoas.
  8. Promover, você mesmo, um evento, onde a presença de estranhos seja admitida. Não admita a cobrança de ingresso, consumação mínima ou nada que o valha. Você controla o contexto, garante uma aglomeração pequena o suficiente para se assegurar que não ocorra um evento negativo.
Se você, leitor, é capaz de cumprir os oito passos, parabéns! As cidades são seu habitat. Se não consegue, não se preocupe: seu sentimento é amplamente compartilhado por muitos outros. Vocês podem combinar de fazer os testes juntos, compartilhar as experiências, dividir aflições. Será, inclusive, muito divertido. Longe de mim achar que isso é uma "solução para a violência". Mas a cidade será, certamente, mais e mais amigável, e nossos temores diminuirão consideravelmente.

terça-feira, 11 de março de 2014

Novas vias não aliviam o trânsito, só pioram

Talvez se possa dizer que o trânsito é hoje, em São Paulo e cada vez mais em outras grandes cidades brasileiras, uma das principais causas de desgaste físico e mental da população, além de prejuízos econômicos em função do tempo gasto em deslocamentos (ou na falta deles), poluição do ar, ruídos e tantos outros problemas.
O tão conhecido trânsito de São Paulo, avenida 23 de Maio. (Fonte da imagem: http://www.coletivoverde.com.br/wp-content/uploads/2012/04/congestionamento-sp.jpg)
Não é de hoje que se tem criticado, especialmente no meio acadêmico e técnico (urbanistas, engenheiros de trânsito e outros) a excessiva prioridade dada às obras viárias. Seja porque as grandes avenidas se mostraram, ao longo do século XX, urbanisticamente desastrosas (imponto rasgos à paisagem urbana e segregando suas áreas lindeiras), seja ainda porque, simplesmente, fracassaram em sua promessa original: ampliar a "vazão" do trânsito e lhe conferir maior velocidade, ou "fluidez".
O uso dessas expressões tomadas da hidráulica revela claramente o modelo que embasou esses projetos viários: o conjunto de veículos foi tomado como analogia de um fluido, um líquido, que corre por canais de drenagem que devem garantir a máxima vazão sob risco de entupimento e estagnação. Por mais que ainda se encontrem os que defendem esse ponto de vista, sua aplicação e a crença em sua veracidade tem raízes históricas muito mais "poéticas" do que propriamente técnicas. Como mostra Richard Sennett, a analogia dos sistemas viários com o sistema arterial do corpo humano está na raiz dessa concepção, e data ainda dos séculos XVII e XVIII. Essa concepção foi intensamente reforçada pelo sanitarismo do século XIX e início do XX, para o qual a velocidade de circulação era garantia de vitalidade urbana.
A circulação sanguínea descoberta por William Harvey serviu como modelo para a circulação de pessoas e veículos nas cidades. (Fonte da imagem: blog "Filosofia e Filosofias do Renascimento"). Vide também SENNETT, Richard. Carne de Pedra: O corpo e a cidade na civilização ocidental. Rio de Janeiro: Record, 2003.







Há quem diga, atualmente, que o modelo mais apropriado para a compreensão do trânsito seja outro fluido - não líquido, mas gasoso: ocupa-se todo o volume do recipiente, independentemente de suas dimensões. Nessa lógica, portanto, a expansão viária não resolve o problema, pois mais ruas e avenidas significariam somente mais veículos transitando. Pouco tempo é necessário para que uma via aberta para "desafogar" o trânsito esteja, ela também, "afogada". Pode-se discutir a validade de se conceber o trânsito a partir de analogias das ciências naturais (eu, pessoalmente, prefiro pensar que pessoas ativas e pensantes não agem como meras moléculas...), mas aparentemente a conclusão a que se chega a partir dessa nova premissa é verdadeira: mais ruas equivalem a mais trânsito, por paradoxal que possa parecer. E, uma vez que essas descobertas favorecem os argumentos a favor de outros modos de transporte - seja o transporte público de massa ou o individual não motorizado -, é entre os adeptos e defensores dessas outras modalidades que encontramos a maior parte da divulgação de estudos que embasam um novo posicionamento em relação à mobilidade urbana. Aqui são apresentados três desses estudos, dois deles disponíveis no site Bicycle Universe.
No primeiro deles (link aqui), argumenta-se que novas estradas causam dispersão da ocupação (desenvolvimento em áreas longe do centro da cidade), e os novos habitantes da periferia entopem as novas vias enquanto dirigem de e para o seu trabalho na cidade. A ocupação que se desenvolve ao longo de novas rodovias, enchendo-as com o novo tráfego, reduzem a sua capacidade de tirar o tráfego de outros estradas congestionadas. Além disso, a quantidade de alívio do congestionamento oferecido por novas estradas muitas vezes não equivale ao congestionamento causado pelos próprios projetos de construção de estradas. 
No mesmo website (link aqui) é mostrada uma reportagem de 1999 do jornal USA Today, segundo a qual alguns dos maiores e mais caros projetos de construção de estradas dos EUA economizariam aos motoristas apenas 30 segundos no trajeto quando estivessem concluídas. Afirma ainda que os motoristas perdem mais tempo em atrasos de obras rodoviárias do que economizariam em anos de condução nas vias. O argumento é que melhoria das estradas é compensado pelo aumento do volume de tráfego. São citados os seguintes casos:
  • Springfield: uma obra de 8 anos e custo de US$434 milhões causou aos motoristas atrasos de 30 minutos em cada viagem, em horário de rush, através da conexão conhecida como "Mixing Bowl" (que junta o tráfego de três estradas interestaduais). E, quando a obra estivesse pronta, estimava-se que os motoristas ganhariam cerca de meio minuto (!!!) em seu percurso.
  • Salt Lake City: uma obra de 4 anos e custo de US$1,6 bilhão em cerca de 25 km de uma estrada resultaria num ganho de velocidade média de 1,6 km/h.
  • Trenton: uma obra de 3 anos em uma rodovia estadual causaria um atraso acumulado de 250 horas aos motoristas.
No livro Suburban Nation: The Rise of Sprawl and the Decline of the American Dream (DUANY, Andres, PLATER-ZYBERK, Elizabeth e SPECK, Jeff. S/L: North Point Press, 2000, pp. 88-94.), também citado pelo Bicycle Universe (veja aqui), afirma-se que um estudo da Universidade da Califórnia em Berkeley abrangendo trinta condados da Califórnia entre 1973 e 1990 constatou que, para cada 10 por cento de aumento na capacidade de estrada, o tráfego aumentou 9 por cento dentro de quatro anos - ou seja, o benefício do aumento das vias foi praticamente anulado em muito pouco tempo, fenômeno que passou a ser conhecido como "trânsito induzido" (induced traffic). O mais interessante é que se constatou que a lógica também funciona ao inverso: quando a estrada de West Side de Nova York entrou em colapso em 1973, um estudo mostrou que 93 por cento das viagens de carro perdidas não reapareceram em outro lugar - as pessoas simplesmente pararam de dirigir. Um resultado semelhante seguiu a destruição da Embarcadero Freeway após o terremoto de 1989 em San Francisco. Um estudo britânico citado pelos autores teria descoberto que mudanças rodoviárias do centro tendem a impulsionar as economias locais, enquanto os novos caminhos levam ao aumento do desemprego urbano.
Demolição da Embarcadero Freeway. (Fonte da imagem: http://ww3.hdnux.com/photos/10/06/05/2122074/7/628x471.jpg)

Por fim, um artigo publicado na revista New Scientist (link aqui) afirma que o trânsito fluiria melhor nas cidades em que apenas um número limitado de caminhos levassem ao centro, de modo que, para evitar engarrafamentos, seria mais conveniente fechar do que abrir novas vias. Esta descoberta contra-intuitiva é defendida por Neil Johnson, Douglas e Ashton Timothy Jarrett, da Universidade de Oxford, Reino Unido, que desenvolveram um modelo de aproximação de uma rede urbana complexa com apenas um anel viário e uma série de vias arteriais que cruzam no centro. No experimento, observou-se como o tempo médio de deslocamentos mudava à medida que o número de vias aumentava: quando o modelo assumia que não havia congestionamento no centro, o tempo médio da viagem encurtava conforme o número de vias aumentava. Entretanto, quando os investigadores modificaram o modelo para atrasar qualquer percurso que passasse através do centro, os resultados mudaram: com um pequeno número de vias os trajetos inicialmente tornavam-se mais rápidos em estradas adicionadas à rede; para além de certo número de vias, entretanto, a adição de mais estradas aumentou o tempo médio de viagem.
Sabemos que, na história do urbanismo em São Paulo, muitas intervenções urbanas consistiram exatamente em buscar a resolução do congestionamento de áreas centrais por meio da abertura de novas vias, postura cujas expressões máximas são a declaração do presidente Washington Luís ("governar é abrir estradas") e, principalmente, o famoso "Plano de Avenidas" de Prestes Maia e Ulhoa Cintra.
A aposta rodoviarista do urbanismo paulistano: o Plano de Avenidas (1930) de Prestes Maia e Ulhoa Cintra. (Fonte da imagem: http://www.usp.br/fau/docentes/depprojeto/e_nobre/AUP274/plano_avenidas.jpg)
O rodoviarismo paulistano do século XX teve suas circunstâncias históricas que podemos estudar e compreender (mesmo que discordemos). Já a persistência dessa mentalidade nos dias de hoje é mais difícil de sustentar. Já se dispõe de evidências empíricas em bom número para justificar uma mudança de postura, e talvez o único entrave a isso seja uma espécie de condicionamento mental, um vício de pensamento que faz com que o enfrentamento do problema esbarre num temor quase intransponível. Assim, ao mesmo tempo em que as políticas públicas insistem em obras viárias que se tornam quase imediatamente obsoletas (como foi a infame duplicação da Marginal Tietê durante a gestão Serra), intervenções mais ousadas como a demolição do Elevado Costa e Silva (o "Minhocão") seguem adiadas indefinidamente. Mas talvez esteja chegando o momento em que a população da cidade conclua que não tem mais nada a perder (ou que, sendo impossível piorar, valha a pena correr o "risco" de melhorar). Num momento em que a locomoção por transporte público parece aos poucos ganhar a adesão das camadas mais abastadas da população de São Paulo (veja matéria a respeito aqui) - ainda que o restante da população, com mais crédito e renda, esteja adotando o velho padrão do transporte individual - talvez seja possível vislumbrar um futuro não mais tão distante em que as avenidas e os carros não dominem tão opressivamente nossa paisagem urbana.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Cullenices por São Paulo

Querid@s leitores, por diversos motivos não consegui manter o blog durante os meses de novembro e parte de dezembro. Mas não queria terminar o ano sem ao menos mais uma postagem. Com ela, faço meus votos para um feliza ano de 2014.

Um dos clássicos do urbanismo na segunda metade do século XX, ainda muito lido e discutido nas faculdades, é o livro de Gordon Cullen, Paisagem Urbana. Entre as muitas e instigantes definições dadas por Cullen no livro, talvez a mais importante seja a noção de "visão serial", uma sucessão de perspectivas (visuais) que se obtem ao percorrer um caminho a passo constante. Essa sucessão traz uma série de mudanças de ambientação, com as mudanças correspondentes de estímulos sensoriais (e que não são, como se poderia esperar, apenas visuais): claro/escuro, fechado/aberto, além de outros, talvez mais "eruditos" ou que requeiram um olhar mais treinado.
Mas não há outra maneira de treinar o olhar que não olhar. Observar com calma e atenção, o que não se faz no andar cotidiano que parece apenas conduzir de um ponto a outro, e faz do "meio" uma simples distância a vencer. As surpresas estão ali sempre, mas precisam ser notadas. E para isso é fundamental olhar com calma. Esse é talvez o exercício de urbanismo (e de urbanidade) que talvez mais precisemos fazer nos nossos dias: só assim deixaremos de sentir a cidade como uma ameaça, como feiúra, como artifício (no mau sentido da palavra - e aqui cabe uma lembrança do nome deste blog: artefato, obra de arte, requer alguma artificialidade, então não é a ausência de "natureza" o problema. Prometo retormar o assunto em outra ocasião).
Pois bem, o autor é inglês e ingleses são todos os seus exemplos. Mas, para a surpresa de muitos - não minha -, São Paulo é uma cidade pródiga em percursos que proporcionam perspectivas cambiantes e cenas estimulantes. Eu, que já gostava tanto deste aspecto da cidade, pude confirmá-lo este ano em aulas e discussões com alunos. São Paulo não é uma cidade fácil, nem óbvia. Suas belezas não são evidentes, há que descobri-las, e isso só é possível caminhando por suas ruas. E, neste sentido, o "caos" do Centro de São Paulo se presta maravilhosamente para essas descobertas.
Para comprovar o que estou dizendo, fiz um registro serial de um percurso realizado no centro de São Paulo no dia de hoje (27/12/13), por volta da hora do almoço, desde o viaduto Santa Ifigênia até o Largo São Francisco (clique aqui para ver as fotos). A sequência foi concebida de forma que o observador das fotos encontre sempre (com raras exceções, facilmente identificáveis) uma "âncora" que liga uma foto à seguinte: um edifício, um elemento de vegetação, uma rua, etc.
Para quem quiser, pode seguir as indicações do livro de Cullen, baixando-o a partir do link acima, e tentar identificar as características perceptíveis em cada cena. Ou então, pode apenas tentar identificar suas próprias percepções a cada parada, ou ainda tentar reconhecer lugares que conheça. Enfim, a série, como a cidade, presta-se a múltiplos usos. E, se quiser compartilhar conosco suas impressões ou experiências, fique à vontade! :)
Fico aqui com o que deverá ser, provavelmente, o último post do ano. Prometo me empenhar por mantê-lo ao menos com regularidade no próximo ano (a frequência não sei qual será, mas que ao menos se mantenha razoavelmente constante). Agradeço muito aos que acompanharam estes posts, seus comentários e incentivo. E desejo que 2014 seja repleto de descobertas e andanças pela cidade (seja São Paulo ou qualquer outra onde viva)!

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Paisagens olfativas

Parece haver um interesse cada vez maior de pesquisadores a respeito das relações corpóreas das pessoas com as cidades que habitam.
Um blog muito interessante neste sentido é dedicado às relações entre o olfato e o espaço urbano: "Smell and the City", e é mantido pela pesquisadora Victoria Henshaw, da Universidade de Manchester. Trata-se de uma pesquisa interdisciplinar que envolveu uma série de outros pesquisadores, e lida com uma questão bastante interessante relacionada com a apreensão do espaço urbano, uma dimensão do relacionamento com a cidade que mobiliza um sentido poucas vezes explorado (nosso urbanismo ainda é muito predominantemente baseado nos aspectos visuais da cidade).
É possível avaliar espaços urbanos - e até mesmo projetá-los - tendo como base o cheiro? Que tipo de vínculo se estabelece entre os habitantes da cidade e o ambiente olfativo (que, em inglês, é denominado pela autora como a "smellscape" - algo como a paisagem olfativa)? Parece claro que há uma relação entre a percepção positiva de um espaço e a sensação de que este traz estímulos olfativos agradáveis. Uma das mais recorrentes representações da cidade moderna, quando busca fazer menção à sua insalubridade, é a que se refere ao cheiro da fumaça, da poluição. Por contraste, uma das principais qualidades atribuídas ao espaço rural é o "ar puro", ao "cheiro de mato", etc. Seria possível, então, projetar espaços urbanos que sejam estimulantes ao olfato de uma maneira mais positiva, intensificando os vínculos afetivos das pessoas com esses lugares? É a esta questão que se dedica a autora (também autora do livro Urban Smellscapes: Understanding and Designing City Smell Environments - "Paisagens olfativas urbanas: compreendendo e planejando o cheiro dos ambientes na cidade") e o blog. Com base nessa pesquisa, o blog brasileiro "Sampa Criativa" pesquisou os cheiros e impressões olfativas de alguns moradores paulistanos:


Esta pesquisa remete, de imediato, a um autor um pouco mais conhecido no Brasil, que trata das "paisagens sonoras" (soundscapes), R. Murray Schafer - autor de livros como O ouvido pensante. A questão sonora é um pouco mais reconhecida por nós, arquitetos e urbanistas: o projeto acústico e o conforto sonoro é parte mesmo do currículo nos cursos de Arquitetura. Ainda assim, a relação entre som e qualidade urbana é pouco explorada em outros estudos (percepção e qualidade ambiental, planejamento ou história urbanos), e tem pouquíssimo rebatimento em termos de ordenamento territorial (que restringe a questão sonora a limitações de atividades e horários, e ao controle daquelas sob a forma de fiscalização policialesca, como os "Psiu da vida", assunto que tratei em outro blog), raras vezes sendo incorporados aos planos. Se é assim com o som, supostamente mais consagrado, o que dizer do cheiro? E que outros sentidos ainda sequer consideramos (como o tato ou o paladar)?

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Manifesto de Apoio às Ocupações do Grajaú e de Repúdio à Violência Policial contra os Trabalhadores e Trabalhadoras em Luta por Moradia

Apoiamos e compartilhamos o manifesto abaixo:

A falta de moradias e a precariedade das condições de habitação de grande parte da população pobre de São Paulo sempre foi um problema social grave, e tem piorado nos últimos anos. Por meio da ação de grandes empreiteiras e imobiliárias, respaldadas e incentivadas pelo Estado em âmbito municipal, estadual e federal, regiões que abrigam uma importante parcela da população trabalhadora da cidade passaram a ser objeto de violenta especulação imobiliária. O distrito do Grajaú, que concentra mais de 1 milhão de pessoas, tem sido varrido por uma onda de despejos em massa. Via de regra, às famílias atingidas é oferecida uma indenização pífia ou o auxílio-aluguel, desencadeando um brutal aumento do déficit habitacional, do preço dos aluguéis, bem como do custo de vida na região de uma maneira geral.
Em resposta a esse quadro desesperador, sobretudo nos últimos dois meses dezenas de terrenos abandonados foram ocupados de maneira espontânea pela população pobre do extremo sul de São Paulo. Em muitos casos, em meio a um processo intenso de organização, os ocupantes se engajaram em viabilizar um projeto habitacional nas áreas ocupadas, buscando garantir não apenas a construção de moradias, mas também a preservação ambiental, e a criação de equipamentos públicos e de áreas coletivas.
Diversos esforços foram feitos no sentido de discutir esses projetos com a administração do Prefeito Fernando Haddad, que reiteradamente negou a possibilidade de diálogo. Além disso, por diversas vezes se afirmou publicamente que os ocupantes são oportunistas, que supostamente querem “furar” as irreais “filas de espera” da COHAB e da Secretaria Municipal de Habitação. Além disso, foi dito categoricamente por membros da gestão Haddad que todos os terrenos públicos serão reintegrados, e que inclusive iriam pressionar os proprietários dos terrenos privados a solicitar a reintegração de posse na justiça.
A intransigência e a truculência da atual gestão municipal chegou a um ponto extremo no dia 16 de setembro, quando, sem qualquer aviso prévio e sem ordem judicial, o Prefeito Fernando Haddad e a Subprefeita da Capela do Socorro, Cleide Pandolfi, mobilizaram a Tropa de Choque da Polícia Militar, bem como efetivos da Guarda Civil Metropolitana e da Guarda Ambiental para despejar violentamente os moradores do Jardim da União, que ocupavam um imenso terreno abandonado, de propriedade da Prefeitura de São Paulo. Bombas de gás lacrimogêneo, sprays de pimenta, balas de borracha e cassetetes foram empregados contra crianças, idosos, gestantes, pais e mães de família que já haviam se comprometido a desocupar a área pacificamente. Móveis, geladeiras, fogões e diversos outros pertences dessas famílias foram destruídos e extraviados, celulares e câmeras filmadoras foram roubados, pessoas foram detidas… Uma violência desmedida e inaceitável objetivando dar cabo a uma reivindicação legítima e necessária.
A questão habitacional do Grajaú não será resolvida com repressão policial, e nem com intransigência, desqualificação e medidas paliativas. Reivindicamos a abertura de uma real negociação entre as famílias ocupantes e o Prefeito Fernando Haddad, para que se viabilize a implementação de programas habitacionais nos terrenos ocupados. E repudiamos o emprego de violência contra as famílias em luta, como ocorreu no trágico dia 16 de setembro. Todo Apoio à Ocupação Jardim da União, e às demais ocupações do Grajaú! Abaixo a Repressão contra a população em luta por moradia!
Assinam o Manifesto (em ordem de assinatura):

Paulo Arantes – FFLCH USP
Otília Beatriz Fiori Arantes – FAU-USP
Boaventura de Sousa Santos, Universidade de Coimbra
Maria Rita Kehl. psicanalista, SP
Roberto Leher – UFRJ
Lincoln Secco – USP
Ivana Jinkings, editora, SP
Caio N. de Toledo. – Unicamp
João Bernardo, escritor
Luiz Bernardo Pericás , USP 
Yanina Stasevskas, psicanalista, SP
Clarisse Chiappini Castilhos, economista, Porto Alegre
Lorene Figueiredo, UFF
Elie Ghanem – FEUSP
Rubens Barbosa Camargo – FEUSP
Hamilton Octávio – PUC-SP
Isabel Loureiro – UNESP
Amarílio Ferreira Junior – professor -Ufscar
Marisa Bittar- Ufscar
Marcos Barbosa de Oliveira – FEUSP
Ricardo Antunes/ UNICAMP
Marcus Orione/ FD– USP
Jorge Luiz Souto Maior/ FD/USP
Danilo Martuscelli (UFFS)
Sérgio Salomão Shecaira/ FD/USP
Heloísa Fernandes/ USP
Mauro Luis Iasi/ ESS UFRJ – NEPEM.
Carlos de Almeida Toledo/ Unicamp
Virgínia Fontes – UFF
Concessa Loureiro Vaz/ UFMG
Davisson Cangussu de Souza/ Unifesp-Guarulhos
Ricardo Figueiredo de Castro, historiador/ IH/UFRJ
Fábio Konder Comparato/ Professor Emérito da Faculdade de Direito da USP
Luciana Zaffalon/ Ouvidora-Geral da Defensoria Pública de São Paulo
Raquel Rolnik/ FAU – USP, Relatora da ONU para o direito à moradia adequada.
João Sette Whitaker Ferreira – FAU-USP (LABHAB)
Angélica Matos Souza/ UNESP
Vladimir Safatle / USP
Carlos Vainer/ IPPUR- UFRJ
Francisco Alambert/ USP
Marília Pinto de Carvalho/ USP
Carmen Sylvia Vidigal Moraes
Priscila Figueiredo/ professora FFLCH-USP
Luciana Henrique da Silva/ UNICAMP
Eneas de Oliveira Matos/Professor da Faculdade de Direito da USP
Marildo Menegat ESS-UFRJ
Beatriz de Moraes Vieira História – UERJ
Celso Frederico / USP
Enid Yatsuda Frederico / Unicamp
Sérgio de Carvalho/ USP
Jorge Grespan/ USP
Laura Gagliardi
Sara Granemann/ ESS/UFRJ – NEPEM
Luiz Carlos Moreira/ autor e diretor teatral
Ana Souto/ dramaturga
Paulo Faria/ diretor teatral
Graça Cremon/ produtora cultural
Kiko Rieser/ diretor e dramaturgo
Luiz Renato Martins / ECA-USP
Alexandre Mate / UNESP (“apoio a luta e protesto, permanentemente”)
Verônica dos Santos Sionti/ Defensora Pública
Patrick Lemos Cacicedo/Defensor Público – Coordenador do Núcleo de Situação Carcerária
Bruno Shimizu/Defensor Público – Coordenador Auxiliar do Núcleo de Situação Carcerária
Luciana Zaffalon/ Ouvidora-Geral da Defensoria Pública do Estado de São Paulo
Maria de Fátima Tardin Costa – Arquiteta e Urbanista
Anelise Gutterres /PPG Antropologia Social da UFRGS
Lúcia Rodrigues/jornalista
Simone Polli – UTFPR
Ney Piacentine – integrante do Comitê Gestor do Conselho da Cidade, presidente do Centro ITI (Brasil International Theatre Institute)
Rede de Comunidades do Extremo Sul
USINA - Centro de Trabalhos para o Ambiente Habitado - Assessoria Técnica – SP
Assentamento Milton Santos
Movimento Terra Livre
Associação de Moradores da Favela do Moinho
Movimento Moinho Vivo
Movimento Hip Hop Organizado Mh2o
Coletivo Zagaia
Comboio
Tribunal Popular
Rede 2 de Outubro
Instituto Práxis de Direitos Humanos
Radio Varzea
Cedeca Interlagos
Movimento Mães de Maio
Rede Nacional de Familiares e Vítimas da Violência do Estado
Rede de Comunidades e Movimentos Contra Violência (RJ)
Projeto Raiz – Cursinho Popular
Pela Moradia (RJ)
Kiwi Cia de Teatro
Grupo Cena Livre
Coletivo da Albertina
Cia Estável de Teatro
Engenho Teatral
Coletivo de Galochas
Brava Companhia
Cia Antropofágica
Pessoal do Faroeste
Buraco d’Oráculo
Grupo Teatral Parlendas
Coletivo Voz da Leste
Espaço Sacolão das Artes
Trupe da Lona Preta
Espaço Carlos Marighella
Rede Recusa
Associação dos Geógrafos Brasileiros - São Paulo
Comitê Popular da Copa
Tia Tralha/ grupo de teatro
Coletivo Katu - Educação Popular
Trupe Olho da Rua - Santos
Movimento Cultura Livre
Movimento Arte pela Vida
Enchendo Laje e Soltando Pipa
Ocupação Quilombo das Guerreiras - RJ

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O cidadão contra a cidade ideal


O título deste post parafraseia um capítulo do livro A cidade na História, do sempre fundamental Lewis Mumford, em que o autor examina a ascensão de uma forma de pensamento "utopista" entre filósofos do porte de Platão e Aristóteles. Sem pretender resumir a riqueza deste texto, basta destacar que Mumford mostra que o ápice ateniense como organização política e civil é anterior aos dois maiores filósofos gregos. Aristóteles, por exemplo, chegou a educar o conquistador macedônico Alexandre, que afinal conquista a Hélade e unifica as cidades-Estado que, até então, eram unidades autônomas.
O pensamento idealista de Platão é derivado, de certa forma, de um desencantamento com a experiência "democrática" de Atenas, que condenou à morte seu mestre Sócrates, talvez o filósofo mais estreitamente ligado ao diálogo e ao debate que deveria caracterizar em sua grandeza a experiência política (que, para os gregos, equivalia em grande parte a urbanidade e civilidade - e todas essas palavras trazem, não por coincidência, a "cidade" em sua raiz). O tratado político de Platão, de fato, dedica-se à discussão da noção de justiça. O que é um governo justo, e como o poder pode ser exercido com justiça?
O que Mumford censura em Platão é o caminho que o grego escolhe para responder às limitações daquela democracia: em lugar de mais, menos diálogo. Ao "calor" das discussões de assembleia, em que as decisões da "opinião pública" são influenciadas por oradores habilidosos, e a energia e furor da "massa" são manipuláveis com recursos de retórica, Platão teria respondido com a proposta de uma cidade "ideal" rígida, governada por "sábios". Isso equivaleria a dizer que, no ideal platônico, os governantes se pautariam unicamente pelo bem comum, por um elevado e desapaixonado senso de justiça que lhes permitira sempre decidir pelo melhor. Muitos séculos de experiência nos permitem ver que esse governo magnânimo não se verificou, exceto talvez em casos muito excepcionais. Extremamente comum, entretanto, é o caminho que leva, da crítica à "irracionalidade" da decisão política coletiva, na direção de uma reivindicação de julgamentos desapaixonados e/ou um poder centralizado e forte.
Parece que nos encontramos, atualmente, na mesma encruzilhada. O julgamento do "mensalão" é um caso paradigmático, neste sentido. Não quero entrar no mensalão em si, mas nos caminhos que nossa sociedade demonstra querer trilhar ao clamar por justiça. Um dos caminhos é o que se fia no lema "a voz do povo é a voz de Deus", tomado literalmente. A "voz do povo", evidentemente, é o da "opinião pública", e esta parece se inclinar francamente a favor da punição severa, exemplar e didática, de todos os envolvidos. São louvados os juízes que votam alinhados com a opinião pública, e execrados os que dela discordam, como se essa discordância significasse necessariamente que sejam igualmente corruptos. Entre os defensores dos acusados, a tendência é a mesma, com sinais trocados: os juízes alinhados com a "voz do povo" são tão manipulados quanto aquela, e agem de acordo com interesses escusos (como a mídia que manipula essa voz).
Outro caminho é o que aposta no julgamento "técnico", imune (ou insensível?) ao "clamor popular". Foi a posição de Celso Mello, por exemplo. E um terceiro caminho é o que defende a inutilidade de longos, desgastantes e - aparentemente - inúteis julgamentos. O prolongamento das discussões seria unicamente capaz de resultar em "pizza": ou seja, quanto mais se discute, menos provável a condenação. Portanto, melhor que uma autoridade imbuída de inquestionável (sic) reputação, caráter e senso do interesse público, seja capaz de decidir rapidamente e sem impedimentos. O que esses dois caminhos têm em comum é o desejo de um governo "platônico", que substitua o debate por uma decisão proveniente de uma "sabedoria" superior - seja a tecnicalidade da lei interpretada de forma positiva (e até positivista), seja o clamor popular aceito sem ressalvas.
Mas será a "voz do povo", entendida desta maneira, capaz de produzir justiça? E será que existe qualquer "sábio" capaz de decidir de forma desinteressada? Até onde a experiência histórica permite reconhecer, a resposta para as duas perguntas é "não". A voz do povo condenou Sócrates, e o "sábio" se tornou "Führer"...
Não há saída, pois. Na verdade há sim, mas é a mais trabalhosa: continuar o debate. Possibilitar idas e vindas, mudança de opinião, garantir possibilidade de apelação e reexame. Até que uma decisão seja tomada de forma serena - não insensível, mas tampouco intempestiva. E, quando se mostre impossível alcançar essa serenidade, ao menos demonstre que alcançou o acordo possível. Democracia é difícil, por vezes lenta demais, até frustrante. Mas é um meio de conseguir um tipo especial de justiça: um que não se baseia no desejo de vingança.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

‘Sinfonia’ Paulistana – Retrato de Uma Cidade (1974)


Desde pelo menos o IV Centenário, os compositores que se dedicam a homenagear São Paulo se valem do mais desbragado ufanismo e das imagens do "progresso", do "trabalho", do "acordar cedo" ou "não dorme"... Só que, enquanto quase ninguém mais lembra dos "hinos" de 1954, dificilmente haverá um paulistano que não reconheça o "vambora, vambora, olha a hora, vambora vambora"... Claro, parte disso se deve ao fato de que a música é tema e vinheta de um  programa de rádio matinal tradicionalíssimo na cidade. Quem madruga pra trabalhar ou estudar em algum momento foi confortado, acordado, consolado ou irritado com a emblemática canção-convocação de Billy Blanco.
Mas, é claro, há outra razão para a permanência da música na memória coletiva: a música é muito boa! Podemos discordar completamente de, ou problematizar infinitamente, palavras como:
São Paulo, que não sabe adormecer
Porque durante a noite, paulista vai pensando
Nas coisas que de dia vai fazer
São Paulo, todo frio quando amanhece
Correndo no seu tanto o que fazer
Na reza do paulista, trabalho é Padre-Nosso
É a prece de quem luta e quer vencer

Mas ninguém fica indiferente ao ritmo acelerado e à cadência impressa pela melodia a essas palavras. Poucas articulações foram tão bem sucedidas. A eterna pressa do paulistano-tipo está perfeitamente ilustrada na melodia que acompanha os famosos versos (claro que o leitor conhece a melodia):
A cidade não desperta, apenas acerta a sua posição
Porque tudo se repete, são sete
E às sete explode em multidão

Pois é. Você conhece, você viveu (ou vive) tudo isto. Então aproveite: o sensacional blog "Um que tenha" disponibilizou este disco para download. Se você quer entender um pouco melhor o que São Paulo disse de si mesma no século XX quase todo, tem que ouvir. E se quer fazer uma cidade diferente, tem que ouvir também, porque é com essa imagem que você vai se defrontar em algum momento.

‘Sinfonia’ Paulistana – Retrato de Uma Cidade (1974)
http://www.youtube.com/watch?v=-sJ4O1DbpEc&hd=1

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Camelódromo, manifestódromo e a redução da urbanidade

Ideias caras ao planejamento e desenho urbano mais ortodoxo preconizam a separação de usos e a definição clara de atividades específicas a serem desenvolvidas em determinados espaços das cidades. A concepção implícita a esta forma de organizar o espaço urbano é centrada na ideia de "eficiência": as atividades devem ser realizadas com o máximo de desempenho e o mínimo custo. Uma lógica, como se pode ver, muito coerente com o nosso capitalismo.
Assim, a parcela dominante da população procura, em nome dessa eficiência capitalista, reduzir os "improvisos" e os "distúrbios" que pudessem inibir ou entravar a livre circulação de pessoas, veículos, mercadorias. Em uma palavra: de riquezas. Daí uma definição estrita e intransigente da rua como "sistema viário": um espaço de circulação, não de permanência; de passagem, não de parada... e de carros, não de pessoas (estas se limitem ao espaço das calçadas. Segurança? Não: desimpedimento ao carro). As calçadas e praças, por sua vez, são igualmente restritas à passagem (mesmo que de pedestres), e outras atividades são consideradas inapropriadas, porque "interferem" no uso principal do espaço, novamente fundado em circulação/passagem. Daí se entende porque as gestões passadas da prefeitura de São Paulo (observemos quanto deste comentário poderá se aplicar à gestão atual...) travaram verdadeira batalha para "livrar" os espaços públicos dos usos "incômodos", como os artistas de rua e o comércio ambulante.
Mas as práticas cotidianas de apropriação e uso do espaço urbano parecem se fundamentar em costumes muito mais antigos do que este requisito de eficiência do urbanismo moderno/contemporâneo. Segundo esses costumes, os espaços urbanos são fundamentalmente "multifuncionais" e seus usos intercambiáveis ou mesmo coexistentes (simultâneos). Não é, provavelmente, uma solução de alta "eficiência", pelo menos não sob o ponto de vista da circulação desimpedida. Mas é uma prática do espaço que propicia uma série de outros ganhos não contabilizados: espaços de interação, intercâmbio, informação. E, como Jane Jacobs já observara há mais de 50 anos: espaços frequentados são geralmente espaços mais seguros...


A desordem insuportável da cidade pré-moderna...

Mas o ideal funcionalista e redutor permanece incólume como parte da ideologia de muitos gestores públicos, autoridades políticas, membros da elite econômica, etc. Para estes, a diversidade e multiplicidade das atividades em espaço urbano se confundem com "desordem", devendo ser disciplinadas e domesticadas. Um primeiro caso deste tipo de intervenção ordenadora contemporânea está nos famigerados "camelódromos", denominação jocosa aos espaços destinados a agrupar comerciantes ambulantes (camelôs), retirados de ruas e praças onde - diz-se - sua presença atrapalhava a livre circulação de transeuntes. Desconsideram-se as condições fundamentais para a sobrevivência do comércio ambulante: a proximidade dos fluxos de pessoas e a possibilidade das compras de oportunidade, não planejadas e realizadas apenas porque o passante vê a mercadoria e resolve adquiri-la. O "camelódromo" pressupõe que todos os compradores dos camelôs dirigem-se a eles previamente motivados a comprar algo, sabendo o que é e dirigindo-se decididamente a eles para a aquisição. Margem nenhuma ao improviso e adaptação. (Lamentavelmente, projetos dessa infame categoria de edifícios têm contado com a colaboração de muitos arquitetos e urbanistas, como mostra o projeto abaixo para um "camelódromo em Porto Alegre):

Todo comércio deve se parecer com um "shopping center"?

A situação se complica ainda mais quando, ao ideal "estético" e "moralizante" de uma rua ou praça livre de camelôs, soma-se também a ideia de que outros usos imprevistos e "desconformes" da cidade representam uma ameaça à ordem vigente ou a um "direito" (mesquinhamente definido) de "ir e vir". De carro, é claro.
Estamos nos referindo, claro, aos protestos de rua, frequentes no Brasil nos últimos dois meses, e sua ocupação dos espaços viários para passeatas, com o óbvio impacto sobre o trânsito local. Pouco importa que os protestos sejam por melhores condições de transporte coletivo e por um padrão renovado de mobilidade e acessibilidade nas cidades.
Pois a "solução" que os governantes do Rio de Janeiro trazem como resposta ao suposto conflito entre manifestantes e os motoristas é fazer exatamente o que se pensou a respeito dos camelôs. Retirá-los do espaço dinâmico, fluido e multifuncional da rua para outro - estático, monótono, isolado. Um espaço que, claro, já ganhou o apelido de "manifestódromo"...
Está claro que o objetivo não declarado é silenciar e isolar os protestos, extrair-lhes a capacidade de dialogar com o restante da população e, eventualmente, angariar seu apoio. Mas, para além do objetivo imediato, há que se notar o paradigma persistente, segundo o qual a cidade não deveria servir para mais nada além de ser o espaço de produção e circulação do capital. O que virá depois?
Devemos nos opor a este tipo de solução. Pela possibilidade de inventar o uso do espaço a cada momento, de que ele acomode a criatividade, o improviso, e não apenas a eficiência. E, acima de tudo, que se mantenha aberta a possibilidade de questionar a "ordem" vigente, quando for necessário.
Encerramos com uma imagem satírica: o que teria sido da Revolução Francesa se os manifestantes aceitassem se restringir a um espaço previamente limitado por aqueles contra os quais protestavam?


A distopia da "baderna ordenada"...

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Palestra: "Debaixo do Progréssio: música e urbanização em São Paulo"

Divulgo aqui um evento que será realizado hoje (14 de agosto de 2013) na Unifesp, Campus de Guarulhos.
Vou falar sobre a pesquisa de meu doutorado, envolvendo música e urbanização em São Paulo nos anos 1950 e 1960. As fontes, os métodos, os nomes e... as músicas, claro.
Quem quiser participar da "roda de samba" está convidado!


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Para que serve um abrigo de ônibus mesmo?

Há alguns meses os abrigos em pontos de ônibus de São Paulo têm sido substituídos por um novo modelo.
Neste post muito rápido, quero compartilhar brevemente alguns registros do uso desse novo elemento de mobiliário urbano, e comprovar sua completa inadequação.
A cena: um dia de sol, de começo do ano (verão), numa avenida no distrito da Vila Mariana. Na primeira imagem, as duas usuárias se espremem no canto do abrigo que - vejam que incrível - abriga.


A segunda imagem mostra que a cobertura, cuja função normalmente é definida como a de proteger de intempéries, não protege do sol...

A terceira ironia: enquanto as senhoras ficam em pé junto à única parte sombreada do ponto, a parte que permitiria a espera confortável (sentado) fica exposta ao calor e sol. Um desenho demasiado rígido não possibilita a adequação às condições locais de insolação. E assim fica o ponto meio "abandonado" e meio "abarrotado".

Viu, como se faz: um abrigo inútil, caro e frágil pra (não) usar?